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A Arábia Saudita anunciou ao mundo o seu novo mega-projecto, trata-se da KAEC – King Abdullah Economic City, num projecto que o reino saudita prevê estar concluído em 2025 e cuja orçamentação ascende aos 92 mil milhões de euros (por comparação: a dívida pública portuguesa ascende a mais de 200 mil milhões de euros), projecto que se propõe criar uma cidade alfa-global, com elevado nível de auto-produção, tudo isto graças à economia saudita baseada na extracção de petróleo, numa altura em que o mundo assiste a um recuo nos preços do petróleo.

 

 

De facto, a Arábia Saudita detém quase um quinto das reservas de ouro negro mundiais, permitindo aos países do golfo pérsico financiar projectos de magnitude monumental, mesmo quando a base económica destes estados está intrinsecamente e perigosamente assente no petróleo, aliás, quem não se lembra da iminente falência da bolha imobiliária no Dubai?

 

Não que haja mal no progresso, mas este progresso é a face visível dum problema global emergente, sem falar nas incongruências civilizacionais que estes estados enfrentam, sistemas de governo baseadas em monarquias absolutas hereditárias, ditaduras intrinsecamente ligadas quer à manutenção da religiosidade como vector modulador da vida social, quer à ligação promiscua com outros estados e empresas globais de processamento e distribuição de derivados de petróleo, de fundos económicos que têm a capacidade de moldar comportamentos cambiais, investimento e controlo de dívidas soberanas e manutenção das divisas mais transaccionadas (e entesouradas) assentes na base petrolífera.

 

A todo este cenário, esconde-se, ou melhor oculta-se a pobreza extrema sob vistosos PIB per capita que, no fundo são o corolário da concentração de riqueza em poucos indivíduos gravitando as esferas do poder, todo isto secundado por um estado religioso que molda a sociedade e é capaz dos actos mais bárbaros perpetuados contra a humanidade.

 

No entanto o problema é mais profundo, para que estes países, ou melhor, os donos destes países possam continuar o seu império pessoal e projectar na terra o seu imenso poder, é necessário que se canalizem os meios financeiros para as sua empreitadas, isto é conseguido graças à sede pela energia que ainda está bastante dependente do petróleo, tanto que qualquer variação ou quebra na sua produção, perturbações no seu fornecimento e simples rumores podem fazer entrar em queda a maioria das praças financeiras ocidentais.

 

No caso concreto, a economia europeia é a que será sempre mais penalizada, no fundo do circuito económico, o estado social, os valores da protecção social e de previdência estão a ser esmifrados porque noutro ponto do globo há hordas inteiras que se predispõe a ser escravizadas, existem estados megalómanos a construírem Torres de Babel com os lucros do empobrecimento civilizacional da europa, os lucros do nivelamento por baixo das relações laborais, do enfraquecimento da economia social, cada vez mais exposta às dívidas públicas, às dívidas privadas e que a pouco e pouco vão sendo selvaticamente liberalizadas em nome da manutenção das balanças comerciais que, por sua vez, se colocam na mão da economia global da energia e, ulteriormente, do petróleo.

 

É preciso pensar nas transacções macroeconómicas como uma cadeia alimentar, no fundo da cadeia estão os países que produzem matérias-primas e as vendem, não manufacturadas, ao preço da chuva, de seguida vêm os países industriais, muitos deles sob a bandeira de grandes multinacionais e a maioria sem controlo interno da produção, subindo a cadeia temos os estritamente baseados no sector terciário de ponta, aqui situam-se as grandes praças financeiras, as maiores bolsas de valores e de derivados, derivados que são extraídos dos países produtores e que assim perdem completamente o controlo dos preços, e no topo, os países capazes de controlar as fontes de energia, sem as quais o mundo pára.

 

É óbvio que a Europa está em agonia desde que começou a perder a hegemonia mundial, a Libra como moeda de base colonial que evoluiu para moeda de transacção de derivados foi substituída pelo Dólar, moeda assente sobretudo no comércio petrolífero. Chegou ao século XXI com um dilema, manter o Modelo Social Europeu ou liberalizar-se, face à concorrência neo-esclavagista do Oriente no que diz respeito ao sector primário e secundário, à hegemonia dos países produtores de petróleo e gás natural, no sector energético e aos Estados Unidos com a sua influência económica que ficou bastante patente com a crise do sub-prime e ao controlo quase total da opinião económica e financeira sobre dívidas nacionais levadas a cabo pelas agências de rating, que insistem em impor uma visão ultra-liberal à economia europeia.

 

Na geopolítica mundial, a Europa está a esvaziar-se de sentido, dentro da UE, crescem confrontos políticos e ideológicos que estão a enfraquecer ainda mais o velho continente, uma tentativa alemã de controlo económico por via da monopolização centralizadora das directivas económicas aliada a um controlo das transacções monetárias entre as economias europeias.

 

A Alemanha é a grande capitalizadora do desvio económico europeu, por um lado, a influência política, a centralização das directivas ideológicas da união, por outro, o milagre económico conseguido à custa das quotas produtivas e, ainda mais, do financiamento a custo zero da sua economia, estrangulando qualquer tentativa das restantes economias que não só têm que crescer para compensar a carga fiscal e o financiamento especulativo das dívidas soberanas, como têm que conseguir, sabe lá com que milagres, para além do resultado económico absorvido pelos estados, crescer ainda mais para fazer frente ao financiamento mais caro.

 

Simplificando, uma empresa portuguesa para competir com uma alemã no crescimento, necessita de produzir mais X unidades monetárias a título de comparticipação na dívida nacional e mais Y unidades a título do custo mais alto de financiamento, além disso, conceptualmente, ainda mais Z unidades a título dos ganhos de escala com a centralização da política monetária e económica sob a esfera de influência e visão germânicas. É esta conjugação de factores que faz com que hoje se assista à guerra ideológica, entre a visão alemã e uma aproximação aos valores da solidariedade que caracterizaram os primeiros tempos da CEE.

 

Enquanto a Europa se afunda na sua deriva de valores, os novos donos do mundo, BRIC’s e afins, erguem-se à custa do sacrifício dos seus próprios povos, baixas taxas de cuidados sociais, falta de solidariedade social, onde os trabalhadores são contabilizados como activos que quando se tornam incapazes são descartados e deixados à sua sorte, realidade semelhante à dos Estados Unidos, que apesar de tudo, com a última administração está a dar passos para aliviar a pressão sobre a população que é exercida pela política de saúde pública baseada nas seguradoras. O mundo vive sob uma decadência cega às transacções económicas, esquecendo-se que a economia social é, de facto, a grande impulsionadora, da economia tradicional, ainda que seja difícil quantificar o seu impacto porque não é directamente mensurável.

 

É com base nesse alheamento civilizacional que países como a Arábia Saudita apresentam projectos megalómanos, enquanto a Europa tapa os olhos ao que se vai passando no mundo e cada vez sendo menos influente. Talvez daqui por duas décadas acordará para o seu estado real, um museu cheio de história que não cuidou do seu legado e que se tornará num elemento perfeitamente desprezível na política mundial.

 

 

A união deve procurar minimizar a dependência energética, para se precaver e para que não tenham que ser os seus cidadãos a perder a dignidade humana para financiar os projectos bajuladores duma monarquia medieval em pleno século XXI.

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